
Existe um tipo de aplauso que chega cedo demais. Ele não vem de um estádio, nem de uma final, nem de um resultado que exige anos de treino silencioso. Ele vem de um lugar mais fácil, mais rápido e mais sedutor: a tela. Um story bem editado. Um vídeo com trilha épica. Uma legenda que parece currículo. Um perfil “oficial” de uma criança de 10, 11 anos, como se a vida já estivesse em modo contrato, patrocínio, relevância.
E aqui nasce um paradoxo perigoso: quando o jovem atleta começa a “ter” antes de “ser”. Ter visibilidade antes de ter identidade. Ter performance editada antes de ter repertório interno. Ter reconhecimento antes de ter base. Ter personagens antes de ter segurança.
Não é uma crítica moral às redes sociais. É uma chamada de responsabilidade para quem forma: pais, familiares, treinadores, professores, clubes. Porque, gostemos ou não, as redes se tornaram uma escola paralela. Só que é uma escola sem pedagogo, sem filtro, sem cuidado com fase de desenvolvimento, sem compromisso com a saúde emocional do aluno, e quando um adulto transforma a infância esportiva em vitrine, a mensagem que chega no cérebro do jovem não é a que o adulto pensa que está enviando.
O que o jovem aprende quando vira “marca” cedo demais começa a aparecer na prática. A exposição frequente cria um ambiente em que o valor do atleta começa a ser medido por sinais externos: curtidas, comentários, compartilhamentos, seguidores. Isso não é detalhe. É um tipo de aprendizagem. A adolescência já é, por natureza, um período de construção de identidade, busca de pertencimento e sensibilidade à avaliação social. A literatura sobre redes sociais e desenvolvimento mostra como a qualidade do uso, especialmente quando envolve autoapresentação e comparação social, se conecta a autoestima, clareza de autoconceito e sofrimento identitário em adolescentes.
Agora imagine isso somado ao esporte, que por si só já é um palco de avaliação constante: tempo, ranking, convocação, titularidade, corte. Quando o ambiente familiar adiciona uma segunda arquibancada, a digital, o jovem passa a competir em dois lugares ao mesmo tempo: no campo e na percepção dos outros. E há um efeito colateral silencioso: ele começa a treinar também para manter uma narrativa. Narrativa de promessa. Narrativa de fenômeno. Narrativa de “isso aqui vai dar certo”. O problema é que narrativas exigem coerência, e a formação esportiva real é incoerente por definição: oscila, cai, volta, estaciona, amadurece, cresce em espiral.
Quando o jovem sente que precisa sustentar uma imagem, ele corre o risco de evitar aquilo que mais forma um atleta de verdade: errar em público, atravessar fases ruins, ter dias comuns, ser aprendiz. Há pesquisas específicas com atletas adolescentes mostrando que a forma como eles se apresentam nas redes e como recebem respostas pode afetar autoestima e bem estar, justamente porque o “eu atleta” fica exposto ao julgamento social. No fundo, o “ter” cedo cria uma pressão por continuidade: se já estou sendo tratado como alguém grande, não posso viver como alguém em construção. E quase todo burnout começa assim: não pelo volume de treino, mas pela soma de exigências invisíveis.
A pergunta mais importante não é “qual o problema de postar?”. A pergunta é “o que isso ensina sobre por que ele treina?”. A teoria mais sólida para explicar esse ponto é a Self Determination Theory, que há décadas descreve a qualidade da motivação humana e como ambientes podem fortalecer ou enfraquecer três necessidades psicológicas básicas: autonomia, competência e vínculo. Quando pais apoiam essas necessidades, a tendência é haver mais motivação autodeterminada, mais bem estar e mais sustentação ao longo do tempo.
Compare dois cenários. No primeiro, o atleta treina porque quer melhorar, porque gosta do processo, porque sente autonomia e sentido. Ele aprende a se medir por indicadores internos: esforço, consistência, coragem, aprendizagem, disciplina. No segundo, o atleta treina também para sustentar um personagem. Ele aprende a se medir por indicadores externos: aprovação, aplauso, validação, destaque. O segundo cenário pode até gerar energia no curto prazo. Mas costuma cobrar caro no longo prazo, porque a fonte de combustível depende do olhar do outro. E redes sociais são um lugar instável para buscar estabilidade.
Além disso, existe um fenômeno amplamente documentado nas pesquisas sobre redes: a comparação social online. O adolescente não se compara com o “real” do outro. Ele se compara com o “melhor recorte” do outro. Revisões e meta análises mostram associações consistentes entre comparação social online e problemas de imagem corporal e sofrimento, especialmente em populações jovens.
No esporte, a comparação já existe. A rede multiplica. A cada postagem, o jovem pode estar sem perceber construindo uma dependência de reforço externo. E o “like” vira um mini veredito: hoje eu fui bom, hoje eu existo, hoje eu valho. Isso é “ter” antes de “ser”.
Existe até um termo para o comportamento de pais que compartilham excessivamente conteúdo dos filhos: sharenting. E a discussão científica não está focada só em privacidade ou segurança, mas também em autonomia, identidade e efeitos psicológicos ao longo do tempo. Quando um pai cria um Instagram para o filho e alimenta essa vitrine, ele pode estar sem intenção comunicando três mensagens profundas: seu valor é público, sua história me pertence, seu futuro precisa ser provado o tempo todo.
Em muitos casos, o pai pensa que está incentivando. Mas incentivo de verdade fortalece o mundo interno do jovem. Exposição fortalece o mundo externo ao redor dele, e nem sempre esse mundo é saudável. Além disso, há um detalhe decisivo: o filho não tem maturidade para consentir com as consequências futuras dessa identidade digital. E identidade digital não é um álbum, é uma reputação. E reputação, mais cedo ou mais tarde, vira peso.
Se você é pai, mãe, treinador, formador, aqui vai um caminho prático, sem demonizar as redes, mas colocando as redes no lugar certo: ferramenta, não destino. Antes de postar, vale perguntar a si mesmo se isso forma ou só mostra. Formar significa proteger o processo. Mostrar significa vender a ideia de que o processo já terminou.
O foco não deveria ser “como você aparece”, mas “como você interpreta”. Uma conversa simples, repetida, pode virar vacina psicológica: quando você vê alguém brilhando aqui, lembre que você está vendo um recorte, não a rotina. A ciência sobre redes e adolescentes insiste num ponto: mais importante do que tempo de tela é o tipo de experiência que a tela está criando. Se você vai comemorar algo publicamente, comemore também o que ninguém vê. Comemore consistência, coragem de treinar em fase ruim, ética, respeito, capacidade de aprender, postura com colegas, responsabilidade com escola, sono, rotina. Porque é isso que sustenta a fase adulta.
Uma regra simples e poderosa para famílias é lembrar que rede social não é plano de carreira. Se um dia, mais velho, o atleta quiser construir presença digital, ótimo. Mas isso deveria nascer dele, com maturidade, senso crítico e propósito. Autonomia é um nutriente central da motivação no esporte. O jovem precisa ter o direito de viver semanas sem medalha, meses sem destaque, dias ruins, lesões, pausas, transições. Há consenso no alto rendimento de que saúde mental é parte do desempenho, não um luxo. O jovem que precisa parecer sempre bem corre risco de não pedir ajuda quando não está bem.
Se você faz questão de postar, vale estabelecer limites objetivos. Postar raramente. Evitar termos de “promessa”, “futuro campeão”. Não postar após derrotas. Não postar em momentos de vulnerabilidade. Não postar conteúdos que o jovem não pediria para ver daqui a cinco anos. E principalmente: perguntar ao filho se ele quer aquilo, e aceitar quando ele disser não.
A frase que eu gostaria que todo pai guardasse é simples. Seu filho não precisa ser famoso aos 11. Ele precisa ser inteiro aos 18.
Porque a fase adulta no esporte não pede só talento. Pede estrutura. E estrutura não se constrói com vitrine. Se constrói com processo protegido, motivação bem nutrida e identidade bem cuidada.
O mundo vai tentar “dar” relevância para ele cedo. Vai tentar comprar a história antes de ela existir. Vai tentar colocá lo numa prateleira. O seu papel é mais nobre: lembrar que a prateleira é fria, e a formação é viva. Ter antes do ser parece vantagem. Mas, muitas vezes, é um atalho para um cansaço que ninguém entende, porque por fora está tudo bonito.
E talvez a maior prova de amor de um pai, hoje, seja ensinar o filho a não confundir aplauso com direção.
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