Todo atleta vencedor é "chato"!

Todo grande atleta vencedor é chato. E isso não é um defeito.

Existe uma palavra que raramente aparece nos livros de treinamento, nos discursos motivacionais ou nas palestras bonitas sobre esporte. Uma palavra simples, até meio indigesta, mas que aparece com frequência quando a gente observa, de perto, quem realmente sustenta o alto rendimento por muitos anos: chato.

Eu sei. Parece provocação barata. Mas não é.

Quando digo que todo grande atleta vencedor é chato, não estou falando de personalidade difícil, de mau humor ou de alguém incapaz de conviver bem. Estou falando de um modo de funcionar, de um padrão mental e comportamental que, quase sempre, entra em atrito com a lógica do ambiente.

O atleta vencedor costuma ser chato porque ele não negocia o que para os outros é negociável.

Ele não abre mão do básico.

Ele não flexibiliza o que considera essencial.

Ele não se adapta com facilidade à mediocridade disfarçada de normalidade.

E isso incomoda.

Vivemos em uma cultura esportiva que romantiza o talento, o carisma, a espontaneidade. Gostamos do atleta leve, sorridente, acessível, “gente boa”. Nada contra isso. Mas o problema começa quando confundimos agradabilidade social com compromisso competitivo.

O atleta de alto nível é chato porque ele pergunta mais uma vez quando todo mundo já aceitou a resposta. Ele repete o gesto quando o grupo já quer ir embora. Ele volta ao detalhe quando o treino “já foi bom o suficiente”. Ele não se satisfaz com o elogio fácil. Ele desconfia do conforto.

Esse tipo de postura não nasce do ego. Nasce da consciência.

Consciência de que o corpo engana.

Consciência de que a mente gosta de atalhos.

Consciência de que o ambiente, quase sempre, puxa para baixo, não para cima.

Na psicologia do esporte, isso aparece de forma clara quando falamos de padrões elevados de autorregulação, de motivação orientada ao domínio, de tolerância ao desconforto cognitivo. O atleta vencedor não treina apenas para ganhar do outro. Ele treina para não se trair.

E quem não se trai costuma ser chato.

Observe carreiras longevas e consistentes. Não as narrativas, mas os bastidores. Rafael Nadal com seus rituais milimetricamente repetidos. Cristiano Ronaldo com uma rotina que beira o monástico. Michael Jordan elevando o nível do treino a um ponto quase insuportável para quem estava ao redor. Kobe Bryant treinando quando ninguém mais treinava.

Todos eles, em algum momento, foram rotulados como difíceis. Exigentes demais. Obcecados. Chatos.

O curioso é que esse rótulo quase nunca vem enquanto o atleta está vencendo. Ele surge nos períodos de preparação, de repetição silenciosa, de insistência invisível. Surge quando ainda não há medalha, pódio ou manchete para justificar o comportamento.

E aqui está o ponto central da reflexão: o esporte não premia quem agrada; ele recompensa quem sustenta processos.

A chamada “chatice” do alto rendimento é, na verdade, uma forma sofisticada de maturidade. É a capacidade de suportar o tédio do treino, a frustração da correção constante, a solidão das escolhas coerentes. É entender que motivação oscila, que prazer engana e que disciplina não pede permissão para existir.

Isso vale, inclusive, para treinadores, pais e profissionais que cercam o atleta. Muitas vezes, a grande dificuldade não é o jovem não querer treinar. É o ambiente não suportar o nível de compromisso que o treino exige. Preferimos ajustar o padrão ao grupo a sustentar o padrão que forma campeões.

No fim das contas, talvez a pergunta não seja se o atleta é chato ou não.

A pergunta real é: ele está disposto a pagar o preço psicológico da excelência?

Porque ser diferente cansa.

Ser disciplinado isola.

Ser coerente incomoda.

E quase sempre, quem aceita esse pacote inteiro, escuta a mesma coisa em algum momento da carreira: “Você é chato.”

Talvez seja.

Mas, no esporte, e na vida, essa costuma ser uma qualidade mal compreendida.

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