Respeito: a regra que o futebol ignora.

Há muito tempo, o futebol brasileiro convive com algo que deixou de causar estranhamento justamente por se repetir demais: o desrespeito explícito e contínuo à arbitragem. Não se trata de um protesto pontual, fruto da emoção de um lance específico, mas de uma pressão constante, quase institucionalizada, como se o árbitro não tivesse o direito humano de errar. Mais do que isso: como se errar fosse inadmissível apenas para ele, nunca para quem joga.

Enquanto em praticamente todos os outros esportes a figura do árbitro é entendida como guardiã do jogo, no futebol ela passou a ser tratada como um obstáculo a ser vencido. Jogadores cercam, gesticulam, invadem o espaço, elevam o tom, teatralizam. E fazem isso diante de milhões de espectadores, como se fosse parte natural do espetáculo. O que deveria soar absurdo virou paisagem. O que deveria constranger passou a ser normal.

No clássico entre São Paulo e Santos, no último sábado, alguns atletas demonstraram surpresa ao relatar que o árbitro teria se dirigido a eles de maneira mais dura, fora do tom esperado e com palavras ofensivas. A reação chama atenção não pelo conteúdo da reclamação, mas pela incoerência que ela revela. É curioso, e preocupante, que jogadores se mostrem indignados quando recebem do outro lado uma comunicação firme, ao mesmo tempo em que passam o jogo inteiro pressionando, contestando, ironizando e deslegitimando a autoridade de quem apita.

Essa surpresa expõe algo mais profundo: uma dificuldade real de auto-observação. Há uma alienação comportamental instalada. Muitos atletas não se enxergam enquanto agentes ativos desse ambiente hostil. Não percebem que, ao tentar enganar o árbitro de forma reiterada, simulando faltas, exagerando contatos, encenando agressões de maneira infantil e teatral, contribuem diretamente para um jogo mais confuso, mais tenso e menos justo. Essa tentativa constante de manipulação não apenas empobrece o jogo, como coloca o árbitro em um estado permanente de alerta, desconfiança e pressão emocional, o que, paradoxalmente, aumenta a chance de erro e compromete sua imparcialidade.

Esse ciclo é clássico do ponto de vista psicológico: desequilíbrio emocional gera comportamento desorganizado, que retroalimenta ainda mais o desequilíbrio. O futebol brasileiro parece preso a esse looping. Quanto mais se grita, mais se perde clareza. Quanto mais se tenta forçar decisões, mais o jogo se distancia do que deveria ser.

E o problema não para no campo.

Dirigentes que pressionam arbitragem publicamente, técnicos que transformam cada decisão em um escândalo à beira do gramado, clubes que contratam sem pagar, acumulam dívidas e tratam compromissos assumidos com uma irresponsabilidade quase naturalizada, tudo isso comunica algo muito claro: a regra só vale quando convém. O limite é flexível. A autoridade é relativa. O compromisso é negociável.

Como exigir equilíbrio emocional de atletas quando o ambiente institucional que os cerca é profundamente incoerente?

Em outros esportes, especialmente nas artes marciais, essa lógica simplesmente não existe. No judô, no taekwondo, no karatê, no jiu-jitsu, o respeito à arbitragem é parte indissociável da formação do atleta. O gesto, a postura corporal, o silêncio diante da decisão fazem parte do aprendizado tanto quanto a técnica. Questionar de forma desrespeitosa não é visto como “personalidade”, mas como imaturidade. E isso não diminui a competitividade, ao contrário, a qualifica.

Esses esportes ensinam algo fundamental: controle emocional não é repressão da emoção, é domínio sobre ela. É entender que competir não significa perder a capacidade de conviver, de respeitar papéis e de sustentar limites.

No Brasil, o futebol ocupa um lugar simbólico poderoso. Ele educa, queira ou não. Crianças e jovens aprendem comportamento observando seus ídolos. Quando o desrespeito vira rotina, ele se transforma em herança cultural. Depois, nos espantamos ao ver árbitros sendo hostilizados nas categorias de base, técnicos repetindo os mesmos padrões e pais reproduzindo à beira do campo aquilo que veem na televisão.

Talvez a reflexão mais honesta que possamos fazer não seja sobre um episódio isolado, mas sobre a cultura que estamos sustentando há décadas. O futebol não precisa perder emoção para ganhar respeito. Precisa, sim, amadurecer emocionalmente. E amadurecimento começa quando alguém tem coragem de reconhecer que o problema não está apenas no outro, mas no comportamento que escolhemos repetir, e aplaudir.

Respeitar a arbitragem é, no fim, respeitar o próprio jogo. E um esporte que não se respeita dificilmente conseguirá educar, inspirar ou evoluir.

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