
Talvez eu esteja ficando exigente demais. Talvez alguém diga que isso sempre existiu, que faz parte do jogo, que é a cultura do futebol ou que reclamar disso é apenas mais uma forma de moralismo.
Pode ser.
Mas está cada vez mais difícil assistir ao futebol brasileiro e fingir que alguns comportamentos são normais.
São jogadores cercando árbitros, gritando a poucos centímetros de seus rostos, ironizando decisões, simulando agressões, valorizando qualquer contato, tentando enganar adversários, arbitragem e público. Há partidas em que quase tudo vira discussão, provocação, empurrão ou encenação.
E o mais incômodo não é apenas o comportamento.
É a naturalidade com que passamos a aceitá-lo.
O antijogo deixou de ser uma exceção constrangedora e passou a ser tratado como inteligência competitiva. Enganar virou malícia. Provocar virou personalidade. Desrespeitar virou “estar ligado no jogo”. Simular virou recurso. Pressionar o árbitro virou estratégia.
Criamos palavras mais confortáveis para não chamar certas coisas pelo nome.
Não se trata de desejar um futebol sem intensidade, confronto ou emoção. Competição envolve tensão, imposição, agressividade esportiva e disputa. O problema começa quando a intensidade perde qualquer vínculo com o respeito, e a vontade de vencer passa a justificar todo tipo de comportamento.
Há uma incoerência nisso.
Somos uma sociedade que, corretamente, cobra educação, civilidade, respeito, responsabilidade e bons exemplos. Criticamos comportamentos inadequados em escolas, famílias, empresas, governos e redes sociais. Mas, quando eles aparecem dentro de um estádio, parece que suspendemos os mesmos critérios.
Como se vestir uma camisa e entrar em campo concedesse uma licença temporária para agir de uma maneira que não aceitaríamos em nenhum outro ambiente.
E há algo ainda mais preocupante: o futebol não acontece apenas diante de torcedores adultos.
Ele acontece diante de crianças.
Os jogadores das categorias de base não aprendem somente por aquilo que seus treinadores dizem. Aprendem principalmente por aquilo que veem sendo recompensado. Observam seus ídolos, reproduzem gestos, falas, reações e maneiras de competir.
Eles não copiam apenas dribles e comemorações.
Copiam também a simulação, a reclamação, a arrogância, o descontrole e a tentativa permanente de levar vantagem.
Depois nos surpreendemos quando encontramos crianças discutindo com árbitros, desrespeitando adversários, questionando treinadores e tratando qualquer frustração como uma injustiça intolerável.
Mas elas aprenderam observando.
O futebol de formação está cheio de pequenas reproduções do futebol profissional. Meninos e meninas ainda em construção começam muito cedo a acreditar que competir bem significa reclamar mais alto, intimidar, provocar e demonstrar indignação diante de qualquer decisão contrária.
O exemplo educa, mesmo quando não pretende educar.
Por isso, não consigo separar completamente o atleta que compete da pessoa que está sendo construída. É evidente que alguém pode se comportar mal em uma partida e ser respeitoso em outros ambientes. O ser humano é complexo, contraditório e não pode ser reduzido a um episódio.
Mas também seria ingênuo acreditar que o comportamento competitivo não revela nada.
A competição não cria tudo aquilo que aparece em campo. Muitas vezes, ela apenas retira alguns filtros.
Sob pressão, aparecem valores, hábitos, crenças e modelos de pensamento. Aparece a forma como alguém lida com limites, frustrações, regras, autoridade e contrariedade.
E talvez seja justamente por isso que o espetáculo tenha se tornado tão cansativo.
O futebol brasileiro perdeu fluidez. Muitas partidas são interrompidas o tempo inteiro. O jogo raramente encontra ritmo. Há faltas sucessivas, encenações, atrasos, discussões longas e paralisações que transformam noventa minutos em uma experiência truncada.
Os momentos de beleza ainda existem, evidentemente. Há grandes jogadores, grandes treinadores e jogos memoráveis. Mas, em muitas partidas, a sensação é de que o futebol aparece apenas em pequenos intervalos entre uma discussão e outra.
O jogo que deveria ser o centro torna-se quase um detalhe.
E não considero isso apenas um problema estético. É um problema cultural, técnico e educativo.
Quando um ambiente esportivo tolera permanentemente o descontrole, a trapaça e o desrespeito, ele também reduz a qualidade da própria competição. Jogadores passam mais tempo tentando influenciar a arbitragem do que criando soluções. Equipes se especializam em interromper o jogo. A malandragem ocupa o espaço da inteligência. A reação substitui a reflexão.
Depois nos perguntamos por que o futebol nacional tem dificuldade para formar jogadores mais autônomos, criativos, responsáveis e preparados emocionalmente.
Talvez porque ainda confundamos competitividade com descontrole.
Talvez porque tenhamos romantizado demais aquilo que deveria nos constranger.
Talvez porque seja mais fácil dizer que “futebol é assim” do que admitir que permitimos que ele se tornasse assim.
Não pretendo defender um futebol higienizado, artificial ou sem emoção. Quero justamente o contrário. Quero um futebol vivo, intenso, corajoso e apaixonante.
Mas intensidade sem educação não é grandeza.
Paixão sem limite não é autenticidade.
E vencer sem qualquer compromisso com a maneira de vencer empobrece até a vitória.
Não espero que todos concordem comigo. Sei que alguns considerarão essa reflexão exagerada, ingênua ou distante da realidade competitiva. Mas talvez seja importante perguntar: em que momento nos acostumamos tanto com o mau comportamento que passamos a defendê-lo como parte essencial do jogo?
Talvez o problema não seja apenas aquilo que o futebol está mostrando.
Talvez seja aquilo que já não conseguimos mais enxergar.
A educação no esporte é fundamental não apenas para o desenvolvimento técnico, mas também para a formação integral do atleta, influenciando seu desempenho e ...
Há uma crença perigosa no esporte que se repete em todas as modalidades: a ideia de que quanto mais o atleta treina, mais ele “merece” vencer. Treinar muito sempre ...
Como sabemos, milhares de atletas se dedicam todos os dias para alcançarem suas vitórias e construírem uma carreira esportiva de sucesso, mas por que apenas alguns ...